Identidade Sexual: Providência ou Preferência?

 Por Pr. Valdeci Santos

No primeiro semestre de 2017 o Fantástico apresentou uma série de quatro episódios sobre as escolhas e dramas de indivíduos transgêneros. A reportagem se chamou “Quem sou Eu?”e enfocou diferentes fases na vida de pessoas que sentem que nasceram no corpo errado e estão em contínua busca por sua identidade. Conquanto os idealizadores da série possam ter tido a boa intenção de trazer esclarecimentos sobre o assunto, ao final restaram inúmeras indagações e confusões para os telespectadores.[1]

Discussões sobre transgêneros se tornaram populares nos últimos dias e movimentam a mídia ocidental. No cerne do debate está a distinção comumente aceita entre “orientação sexual” e “identidade sexual”. Nesse sentido, identidade sexual diz respeito a quem a pessoa é, enquanto que orientação sexual consiste da atração do indivíduo por outra pessoa. Dessa maneira, quando um homem (identidade sexual) se sente atraído por outro homem (orientação sexual), ele se identifica como homossexual. Todavia, não é assim que funciona na teoria explicativa dos transgêneros.
A explicação apresentada para o fenômeno dos transgêneros é que eles receberam um gênero no seu corpo com o qual não se identificam. Essa identificação ocorre ANTES de haver qualquer atração sexual por outra pessoa. Em outras palavras, a escolha não é determinada pela inclinação sexual, mas pela identidade da pessoa. A fim de respaldar essa explicação, os defensores dessa teoria geralmente afirmam que “pesquisas demonstram” que o corpo da pessoa é formado no terceiro mês, enquanto que a identidade de gênero acontecerá somente por volta do quarto mês de vida. Segundo esse argumento, a fonte dessa confusão é um mero descompasso biológico. Nesse sentido, o transgênero não possui qualquer poder de decisão ou escolha sobre sua condição.
Do ponto de vista analítico, a teoria explicativa geralmente apresentada na literatura sobre identidade de gênero é nebulosa e difusa. Por exemplo, a argumentação se fundamenta em “pesquisas” sem apresentar quais são essas pesquisas, como elas foram conduzidas, qual o grau de cientificidade das mesmas etc. Além do mais, o ponto de vista teórico passa a ser visto como uma verdade comprovada e inquestionável. Nesse caso, a popularidade da explicação se deve ao uso do jargão e não da argumentação (como diria o Coisa Ruim).[2]A força da propaganda parece esvaziar o diálogo, pois sem a possibilidade de argumentação contrária, o público só fica com a alternativa de acatar o discurso!
Contudo, considerando tudo isso sob a ótica do evangelho há muito mais a ser dito.Primeiro, que essa questão não é irrelevante para ninguém, muito menos para os cristãos. O assunto não diz respeito ao universo abstrato, mas a pessoas de carne e osso, criadas à imagem de Deus e, portanto, com valor intrínseco. Além do mais, esse é um assunto que se encontra no topo de toda a lista relacionada às tendências culturais de nossa época. A fim de expressar e compartilhar a fé cristã nesse contexto, é necessário dedicar a devida atenção a esse tópico.
Também, é necessário observar que a busca do transgênero envolve algo mais do que sexo. Ela diz respeito à procura de uma identidade por quem se sente desconectado e confuso. Logo, não deveríamos nunca zombar ou menosprezar o sofrimento de alguém que luta com desordens quanto à identidade ou orientação sexual. Afinal, o cristão, mais do que qualquer outra pessoa, possui a ciência de que o todo ser humano após a queda se sente desconectado da realidade para a qual foi criado. Essa desconexão se manifesta de inúmeras maneiras em diferentes pessoas. Assim, sempre que nos deparamos com alguém angustiado por esse sentimento, nossa primeira reação deveria ser a expressão da misericórdia!
Em terceiro lugar, é necessário compreender que no centro da discussão sobre gênero, identidade e orientação sexual se encontra a definição sobre o que significa, de fato, ser humano. Num mundo de tantos avanços e conquistas de direitos e liberdades, é possível que em determinados momentos se esqueça que ser humano significa ser criaturas. O fato é que a ênfase em prol da autonomia humana é tão forte que somos levados a viver como se fôssemos senhores do nosso destino. Todavia, ser criatura significa que temos significado, mas também limites nessa vida. Nesse contexto, a verdadeira liberdade só pode ser obtida por um viver de acordo com os limites da criação. Qualquer coisa diferente disso pode ser danoso ao indivíduo e à sociedade. Especialmente quando os investimentos por uma autonomia são fundamentados em pressupostos tão frágeis como alguns jargões contemporâneos.
Além do mais, o ensino bíblico sobre sexualidade deixa claro que gênero é definido pela providência e não pela preferência. Em outras palavras, identidade sexual não é uma questão de decisão pessoal, mas do desígnio de Deus para suas criaturas. Essa verdade pode ser especialmente percebida no texto de Romanos 1.19-28, pois o apóstolo Paulo ensina que assim como a natureza revela algumas verdades sobre Deus, ela também o faz com respeito à sexualidade humana. Nesse sentido, a natureza é um dos métodos divinos para ensinar o que todo ser humano deveria preferir: conhecê-lo como Deus e atribuir-lhe glória, bem como exercer a sexualidade segundo ele estabeleceu por sua providência! Assim como a natureza física revela algo sobre a natureza de Deus (divindade, poder e sabedoria), ela revela algo sobre a natureza de cada gênero!
Finalmente, é mister notar que a expressão da sexualidade está intimamente conectada à religiosidade de cada indivíduo. No texto de Romanos 1.19-28, Paulo afirma que aqueles que não adoram e nem reconhecem Deus acabam adorando a criatura ao invés do Criador, ou seja: eles viverão como se fossem autônomos, prestando obediência e honrando seus desejos ao invés da vontade divina. Nesse sentido, a rejeição dos bondosos desígnios de Deus revelados na criação acabam sendo uma rejeição ao próprio Deus em favor de uma idolatria à vontade humana!
Concluindo, qualquer pessoa repleta de bom senso compreenderá que o assunto é mais complexo do que uma meditação rápida sobre o assunto. Todavia, qualquer pessoa repleta de bom senso concluirá que é melhor uma meditação rápida do que o silêncio e a ignorância de um assunto tão importante! A minha esperança é que esse breve ensaio contribua para sua reflexão pessoal e desejo de recorrer às Escrituras para um estudo mais aprofundado sobre o tópico.

[1]Disponível em:http://especiais.g1.globo.com/fantastico/2017/quem-sou-eu/ Acesso em 13.07.2017.

[2] LEWIS, C. S. As cartas do Coisa-Ruim, 1982, p. 20.

Fonte: Pastoral #58 IPB Campo Belo

14 de junho de 2017

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