TENTAÇÕES DA MISSÃO INTEGRAL E DO SE OPOR A ELA

Por Antônio Carlos Costa

A pregação do evangelho acompanhada de ensino sólido, que mostre as implicações político-sociais do cristianismo, pode liberar energia capaz de levar cristãos verdadeiros a lutarem tanto contra totalitarismo de direita, quanto contra totalitarismo de esquerda. E isso a partir da mais alta motivação possível: a glória de Deus. 

1. Ignorar o chamado à evangelização do mundo. 

Obsessão com a injustiça social em detrimento da preocupação com a injustiça pessoal. A primeira, inviabiliza a relação do homem com o seu semelhante. A segunda, inviabiliza a relação do homem com o seu Criador. 

2. Perder de vista o fato de que o pobre é pecador.

A pobreza não é virtude. Não torna o ser humano imune ao pecado. Responsabilidade diminuída não é o mesmo que responsabilidade eliminada.

3. Relativizar o aspecto privado da ética cristã.
Vivi muito essa tentação. Você chega de uma favela na qual dez foram executados. Descobre na cidade esquema de corrupção que sangra os cofres públicos e impede verba pública de chegar às áreas carentes. Percebe o lado hediondo do sistema econômico. Toma conhecimento das relações de poder. A vontade é de circunscrever o pecado a apenas esse tipo de maldade monumental. 

4. Tornar-se marxista.

O marxismo é uma religião secular profundamente atraente para o militante da missão integral. Por falar muito em injustiça social, pode levar o cristão sincero a não perceber que o que prescreve como solução aos males do capitalismo não é tão bom quanto à crítica que faz às injustiças do capitalismo. Nunca devemos nos esquecer do fato que o marxismo vê Cristo, moral cristã, céu, Bíblia, igreja, culto, como frutos de relações econômicas sem nenhum fundamento na realidade dos fatos. Jogo de poder puro. Os detentores do poder usando a religião para justificar a opressão do trabalhador. Marx se enganou. Weber o corrigiu. A pregação do evangelho acompanhada de ensino sólido, que mostre as implicações político-sociais do cristianismo, pode liberar energia capaz de levar cristãos verdadeiros a lutarem tanto contra totalitarismo de direita, quanto contra totalitarismo de esquerda. E isso a partir da mais alta motivação possível: a glória de Deus.   

5. Pregar de modo soberbo e amargo.

Viver a insultar quem pensa de modo diferente, julgar que quem não vê a vida em termos de luta de classe trabalha para o sistema de exploração do pobre, desmerecer o trabalho de crentes fiéis que ainda não entenderam os pressupostos teológicos da missão integral. Cuspirem no próprio prato, pois muitos foram levados a Cristo por pregadores que nada sabiam sobre missão integral.

6. Pastorear igreja que não cresce e não se perturbar com isso.

Chegar à conclusão que a igreja não aumenta em número porque sua mensagem representa verdadeiro golpe nas ambições da burguesia, quando na verdade a igreja deixou de batizar pessoas pelo fato de o pregador não anunciar mais o evangelho, deixando de conclamar a igreja a levar as boas novas aos que não sabem para aonde vão depois da morte.

7. Usar o púlpito para falar desmedidamente sobre política.

Tornar-se monotemático. Mandar no culto de domingo mensagem para a classe governante. Falar sobre o que pouco conhece. Deixar de pregar expositivamente. Permitir que a pregação seja mais pautada pelo jornal do que pela Bíblia.

8. Acreditar que pelo fato de pregar sobre o pobre, está servindo ao pobre.

Dar voz a quem não conhece. Falar sobre pobreza sem estar na favela. Pregar mensagem que nem o pobre entende. Deixar o pobre só, nas ocasiões em que ficar do lado dele representa risco de vida.

9. Envolver-se com política partidária.
Essa é uma coisa que o membro da igreja pode fazer. Mas, como fica a vida de um pregador que usa da sua influência para levar pessoas a aderirem ao seu partido político numa igreja na qual pessoas das mais diferentes linhas ideológicas congregam? Como evitar que seu compromisso com a justiça não seja contaminado pela sua preferência partidária?

10. Ser mais versado em ciência política do que em teologia sistemática

A igreja espera ter como pastor um pregador bom de Bíblia. Capaz de fazer leitura sobre as demais disciplinas do pensamento a partir do enquadramento intelectual da boa teologia sistemática, que tem a teologia bíblica como fundamento. Se a sua paixão é ciência política e não a exposição das Escrituras, largue o púlpito, pois nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.


TENTAÇÕES DO SE OPOR A MISSÃO INTEGRAL

1. Ignorar o chamado à justiça social.

Obsessão com o estado de injustiça do ser humano em detrimento da preocupação com o estado de injustiça da sociedade. Procurar encher o céu que Deus criou para o homem, mas ignorar o inferno que o homem criou para si mesmo. Falar em edificar o reino de Cristo, enquanto os membros da igreja vivem em cidades tornadas em reino do Diabo. Preferir contratar segurança particular para impedir que carros sejam roubados durante o culto a pressionar o poder público a fim de que implemente políticas públicas que diminuirão a criminalidade. 

2. Perder de vista o fato de que o pobre deve ser objeto principal da misericórdia da igreja.

Evangelização que não leva o convertido a se compadecer dos seres humanos que mais sofrem e que no seu sofrimento nada podem fazer para se livrarem dos seus infortúnios, significará, sempre, transformar a igreja em escola de boas maneiras, congregação de andróides, lugar que o jovem rico procurará após ter sido despedido por Cristo. 

É miopia histórica profunda e grave falta de conhecimento das Escrituras não compreender que a pobreza é, na maioria das vezes, fruto da injustiça social. Igreja que não se compadece do necessitado está servindo a Satanás travestido de Cristo.
3. Relativizar a dimensão pública da ética cristã.

Não compreender que tolerar o regime da escravidão é tão hediondo quanto maltratar o escravo. Dar-se por satisfeito por dar o dízimo, não ter amante, levar Júnior ao judô, ser abstêmio; mas, apoiar o Nazismo, ser a favor do Aparthaid, tolerar a supressão dos direitos civis dos negros, ficar mudo quando o Estado permite que seus policiais morram em missões inúteis e não gritar “não matarás!” em ocasiões nas quais a polícia pratica a rodo execuções extrajudiciais. Por que a turma da “lei e ordem” não protestou quando policiais paulistas mataram 19 moradores de periferia, no ano passado, em Osasco? 

4. Ser refratário às críticas que a esquerda faz ao nosso modelo de sociedade.

Fugir de Marx para ser abraçado por Hayek. Denunciar quem apoia Hugo Chaves, mas ficar mudo quando James Dobson e Wayne Grudem apoiam Donald Trump. 

Esquecer-se do fato que Karl Marx começa a criticar o modelo capitalista, num contexto no qual mulheres e crianças trabalhavam 17 horas por dia nas fábricas da Inglaterra protestante. 

Não definir quanto do marxismo uma pessoa precisa crer para ser considerada marxista. Fugir do modelo bolivariano para abraçar o modelo neoliberal. 

Como negar que jamais uma nação foi edificada sem a exploração da mão de obra do trabalhador? Como pastores podem aceitar acriticamente modelo político-econômico que destrói a família, faz pessoas envelhecerem antes do tempo, saqueia a alma? Relação trabalhista análoga a que encontramos nos dias de Moisés: “Eles estão falando sobre libertação porque têm tempo para pensar. Aumentem o trabalho deles! Exijam que produzam mais! Que eles não respirem!” Mente extenuada é também oficina do Diabo.

Como negar o fato de que pastores, teólogos, jornalistas, escritores, podem estar trabalhando para os detentores do poder econômico, justificando a exploração? Exercendo tamanha influencia sobre a cultura a ponto de tornar os prisioneiros preocupados em manter intactas as paredes do cárcere a fim de não escaparem da prisão. A igreja pode transformar sua mensagem em narcótico do povo. 

Tenho pena do pregador que é a favor da manutenção do sistema de exploração por depender das ofertas de quem ameaça sair da igreja caso ele condene do púlpito o regime de escravidão velada, comandado pelo rico. Não há a mínima dúvida de que denominações inteiras e mantenedores do estrangeiro podem exercer a mesma pressão sobre blogueiros, professores de seminário, escritores, palestrantes, pastores. Que covardia. 

5. Pregar com soberba e amargura.

Viver a insultar quem pensa de modo diferente, julgar que quem não vê a vida em termos de – economia de mercado irrestrita, não regulada, não democrática, não preocupada com o meio ambiente, não desejosa de tirar o destino do país das mãos de governantes eleitos pelo povo para o colocar nas mãos dos donos das grandes corporações cujo objetivo é o lucro-, é ingênuo e colabora para o colapso da economia. Como se aumento da renda fosse tudo e chegar ao posto de sétima economia do mundo garantisse por si só a promoção da igualdade de oportunidade de vida para todos. 

Combatem o Estado de bem-estar social, como se fosse possível o oceano de garotos pobres das favelas erguerem-se por conta própria sem a ajuda do poder público. Aí dirão: “Essa é a tarefa da sociedade, não do Estado!” Qual igreja dá conta do sertão do nordeste e das favelas do Rio e São Paulo? Quantas estão interessadas nesse tipo de coisa? A maioria? 

Tornar o ambiente da igreja impossível para quem tem uma mentalidade mais europeia do que americana. Fechar as portas para jovens que têm formação em sociologia, antropologia, ciência política; muitos dos quais incapazes de se imaginarem vivendo em igrejas tão ingenuamente cooptadas por um conservadorismo de direita, que nenhuma ginástica exegética consegue encontrar na Bíblia.

Cuspirem no próprio prato, pois os benefícios civis, políticos e sociais de que gozam são frutos de lutas travadas por homens e mulheres que impediram que esse mundo se tornasse tão mau quanto poderia ser. 

6. Pastorear igreja que não cresce ou cresce de modo adoecido e não se perturbar com isso.

Chegar à conclusão que a igreja não aumenta em número porque seu evangelho é puro, ignorando o fato de que a igreja deixou de batizar pessoas em razão de o pregador anunciar mais lei do que graça, pensar que pregar a Bíblia é o mesmo que pregar o evangelho e não perceber que a igreja está mais versada na controvérsia supralapsariana do que no caminho que leva ao céu. 
Anos de exposição bíblica -sem anunciar ao mesmo tempo o Cristo que nos protege da lei- é capaz de levar jovens a ficarem de cabelo branco, filhos de crentes sumirem da igreja e a membresia agasalhar um rancor secreto em relação a um Deus que não dá descanso à alma humana.

7. Jamais falar sobre política no culto.
Levar a igreja a acreditar que o interesse por política é e sempre será necessariamente mundano. Ignorar a responsabilidade -diante de Deus- de vivenciar o cristianismo numa democracia. Desperdiçar os recursos humanos e a liberdade política, deixando de exercer pressão pacífica e democrática nas ocasiões nas quais o poder público não se mantém sujeito à autoridade constituída por Deus num regime democrático, o povo, cuja vontade é expressa através das leis do país.
Em suma, é pregar sem ter a Bíblia numa das mãos e o jornal na outra. É o país estar ameaçado por grave conflito civil, o tecido social se corroendo, a democracia entrando em colapso, membros da igreja sofrendo pressões infernais no ambiente de trabalho, cristãos sem saberem se participam de uma greve geral; e o pregador não parar a série de mensagens sobre o pedobatismo.

8. Não ver pobre na Bíblia.

Ignorar que não foi Karl Marx, mas Calvino quem disse:

“Cresce a audácia aos ricos, porque aqueles a quem sobrepujam são destituídos de todo recurso. Contudo… quando do lado dos homens nenhuma defesa tenha o pobre, a vingança de Deus mais pronta e aparelhada lhe está”. 

“Eis como fazem os ricos frequentemente, espreitam as ocasiões, a fim de reduzir à metade o ganho da pobre gente, quando não tem em que empregar-se”.

“Quando, pois, tem um homem alguns a seu serviço, deve ele considerar: se eu tivesse no lugar deles, como gostaria de ser tratado?”

“Ora, pois que assim é, quando os pobres que tenhais empregado em obra vossa, e que tenham posto seu labor, seu suor e seu sangue a vosso serviço, não tenham sido assalariados como convém, e não os tenhais confortado e sustentado, se a Deus vingança pedem contra vós, quem vos será procurador, ou advogado, que vos possa livrar?”.

“Ofício próprio de Deus é tomar a causa dos pobres”.

“Nosso Deus… se constitui devedor em lugar do pobre para retribuir-nos de uma vez com amplos juros tudo quanto lhe damos”.

 Ter como referência pregadores europeus e americanos do passado, e não o próprio Cristo, que é visto nas ruas curando, libertando e anunciando o evangelho aos pobres.

9. Ser apartidário.

Trocar a ação suprapartidária pela criminalização da política. Esquecer-se que quem não gosta de política é governado por quem gosta. Ser seletivo nas denúncias que faz contra os partidos políticos. Não estimular com fervor os jovens da igreja a se candidatarem, da mesma forma que o faz quando cobra que se envolvam com a manutenção do funcionamento da máquina eclesiástica.

10. Ser bom em teologia sistemática, mas não ser profeta.

Conhecer o sistema teológico. Ter memória enciclopédica. Mas, mostrar-se incapaz de relacionar a doutrina às realidades concretas da vida das pessoas. Levar ao inferno os jovens da igreja por causa de sexo, mas não dizer ao rico que se ele continuar tão rico quanto era antes de se tornar membro da igreja, estará dando evidência de que jamais nasceu de novo. 

Para ser sincero, vejo esses males, aos quais todo e qualquer membro de igreja evangélica no país está exposto, mais presentes e disseminados no protestantismo brasileiro do que os que mencionei no último artigo, no qual falei sobre as tentações da missão integral. 

Em suma, você e eu temos muito do que nos arrepender. A igreja precisa de reforma e avivamento. Retorno às Escrituras e à verdadeira vida cristã, que somente dedica lealdade incondicional a Cristo.
Por Antônio Carlos Costa

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